Greve dos caminhoneiros, apontamentos.

De quem é, a quem serve e o que é a greve dos caminhoneiros?

Nosso cenário: Brasil periférico e crise de superprodução do Capital na periferia do sistema, claro, desigual e combinada com os países centrais.

Ao contrário das análises de gabinete ou academicistas que só veem um locaut, no quente da rua vemos que nessa greve tem de tudo: peãozada na rua, a burguesia, os velhos burocratas e os novos e honestos sindicalistas tentando dirigir tudo que encontram pela frente. Outro detalhe imprescindível, que parece passar desapercebido, é ver que melhores condições de trabalho e diminuição da jornada não estão na pauta dos grevistas1. Um sinal precioso, indicando que somente as pratas a mais pode levar a greve ao fim. Como em toda briga conjunta com a burguesia: uma merreca para os peões (que estão metendo a cara na rua), duas merrecas para a burocracia sindical e a maior parte pra burguesia. Fica nítido que a greve não é contra o Estado ou contra uma classe, é pela partilha da mais-valia.

Uma bela crise sempre indica briga interna na burguesia e nos escolhidos para ser sua bota (a bota do pé que chuta nossa bunda ou os reles gerentes do Estado, como acharem melhor). Temer balança, mas acreditamos q não cai: está fechado com os banqueiros e se realinhou aos frigoríferos (haja vista Wesley em cana e a troca do presidente da BRF)2. O detalhe básico é que o novo presidente da BRF é o presidente da PETROBRÁS (que, por sua vez, já está com a cabeça a prêmio, segundo as notícias de agora à noite), uma união umbilical.

Essa unidade, no momento econômico em que o “desemprego sobe a a produção desce3”, é mais que necessária para as classes dominantes imporem o combustível dos “seus voos de galinha4, : refis, retirada de direitos, alta rotatividade da força de trabalho e dólar em alta. Os aditivos prediletos do Capital quando necessitam sair de uma crise cíclica que do capital.

Agora, juntando as bolas: todas a mercadorias são transportadas por caminhões, raras são as exceções. Então, qual peça que faltava para baratear mais ainda a produção? Bingo, o transporte. Não bastou o aprofundamento da terceirização nas empresas de logística, desde a implementação da reforma trabalhista, tem que ir além. Lembremos que o único refugo (para a burguesia) do aumento do diesel é o aumento dos “custos de produção” ou da valor dos meios de produção (no caso, da matéria prima que acopla o aumento do valor do transporte). Resumindo, a necessidade mais necessária ao Capital entificado é baratear o Capital mercadoria que chega na fábrica: frete mais barato ajuda e muito. E para mostrar que não são tolos, muito menos mandriões, aproveitam a onda para operar um layoff com a justificativa da falta peças.

Voltando a bota

Se tudo vai tão bem, porque balançariam, novamente, seu presidente Temer? Sabem que tem o movimento na mão, que o proletariado tá mais que dormindo, que o PT/CUT não tem força para nada (além de espernear e chorar o Lula derramado) e que o foco da Social democracia são as eleições. E a pergunta muda: Porque não balançar o Temer? Não dá nada e ainda mostra quem manda em Brasília. Essa foi a forma que encontraram para fazer o refis, a reforma trabalhista e intensificar as privatizações. Temer apanha e dá, apanha e cede. É um presidente de malandro.

Os deslocados…

Como sempre, a pequena burguesia tenta ler o que não conhece, o que não vive, o que não sente. E veio o que? O de sempre: “falta direção da nossa classe”… “por isso, que vão rolar muitas revoltas espontâneas”.

Bem típico, se não é ele quem dirige “falta direção”. Sempre há um burocrata, das mais diversos matizes de vermelho, afirmando a necessidade de serem direção de alguma parcela da classe5.

Aliás, que bom que temos revoltas espontâneas, ao contrário da burocracia que sempre prefere “agendar o dia da greve geral” e se borra de medo das revoltas espontâneas, nós ansiamos por elas. Esse povo tinha que pegar um volante de caminhão para ver como é bom dirigir, virar Uber, taxista, sei lá.

voltando a greve…

Tem direção sim, trabalhador não é burro. Os academicistas e a burocracia nunca entendem além da lógica formal, por isso, não sentem ou enxergam além dos campus universitários e/ou de seu mundo de mesas e reuniões. Não veem que as coisas tão explodindo, que as relações sociais inteiras estão em crise e a explodir. E só estão assim porque há contradição e precarização real no chão das estradas ( fábricas, vidas, e em tudo que há trabalhadores).

Agora há pouco, diversas prefeituras decretaram calamidade pública. E, ao que tudo indica, a greve está indo além da patronal e da burocracia sindical, que não conseguiram terminar com a greve na quinta, 24. Junto a isso, Temer anuncia plano se segurança federal para desbloqueio das estradas6 e o prefeito de São paulo consegue liminar que obriga os grevistas a suspender atos que impeçam o abastecimento de combustível para os serviços essenciais, leia-se, aparato repressivo7.

Junto a repressão o reconhecimento da classe. Discussão entre as trabalhadores no ponto de ônibus já é comum, doação de comida e itens de higiene nos piquetes e, cada vez mais, apoio de outras categorias: manifestações de motoristas de van, taxi, motoboys, rodoviários, produtores rurais estão se jogando nessa bagunça, sem lenço e sem documento: é greve!8

Independente da bela demonstração de força e da euforia que se espalha, vem o que nos falta. Sem os “experiência histórica de classe”9. Sem os dutos que levam o oxigênio para a análise e qualificar o conteúdo de classe o para-brisa fica embaçado. Enxergamos o inimigo como amigo e acreditamos que uns trocados a mais resolve a vida. Sim, realmente suaviza, mas a pauleira do dia a dia continua. Entretanto não é qualquer trocado, a greve continua enquanto o ganho não valer a pena. Enquanto não for suficiente para aguentar toda precarização dos autônomos que estão peitando a burocracia sindical e estatal.

Sim, a greve tem direção e muita: compartilhada entre a burguesia e o proletariado, infelizmente. Mas quem a mantém são os precarizados, ressurgidos do chão da estrada!

Concluindo, acreditamos que essa experiência, assim como a de 2013, é mais que necessária para a classe trabalhadora, em especial o proletariado, ganhar sustância e ser temperado a quente na luta de classes. Como já disse o velho mestre: “Cada passo do movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas.”10

Esse é o momento da agitação e organização que nós, comunistas, temos para aprofundar o trampo de base. Trampo não sindical e não eleitoral. Entretanto, como o chororô pelo fim do imposto sindical e o medo de um pseudo-fascista nos domina, parece que estamos a deixar mais essa janela passar.

 

Praia da Solidão, 25 de maio de 2018

Charles A45, Pedro Seeger e Fenício Guerra.

 

 

4Ibidem.

9 Nosso conteúdo, quem somos. 300 anos sendo lapidados a ferro e fogo, sangue e dor, lágrimas e morte, expressa no manifesto comunista. É quem tem q dirigir, o que temos que repassar pra cada um dos nossos!

10 Marx, Karl. Carta a Wilhelm Bracke. Publicado em https://www.marxists.org/portugues/marx/1875/05/05.htm

3 comentários

  1. Conversa de ZAP
    Eu trabalho na rodoviária, desde sexta tenho visto o posto Rita Maria árvore como ponto de abastecimento de viaturas
    ‬: Mas pro público comum eles não tão vendendo gasolina

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s